ARTIGO
A REAL BUSCA PELA SANTIDADE
“Toda Santidade, toda Perfeição, consiste em Amar a Deus de todo Coração.” Santo Afonso de Maria Ligório

Mais uma vez estou aqui para escrever um pouco, dessa vez sobre algo que gosto de ler e meditar, mas que ao mesmo tempo é bastante exigente, porque é um chamado. E um chamado exige de nós, seja ele qual for.
Chamado é um convite.
Na dinâmica do Reino, nascemos com o Chamado à Santidade. Até assusta escutar ou ler essa frase, mais ainda essa palavra: Santidade. Temos hoje uma visão muito distorcida e radical do que é a Santidade. Se fossemos aqui listar tudo o que temos como definição de santidade, talvez diríamos: perfeição, piedade, amor, misericórdia, doação, oferta, diferencial, e por aí vai.
Está errado? Não. Está certo? Também não.
A Santidade como nos diz Santo Afonso de Maria Ligório, nada mais é do que “amar a Deus de todo o coração”.
Mas só isso? Sim, só isso.
Então sou santo, porque eu amo a Deus de todo o meu coração.
Será que realmente amamos a Deus? No que consiste Amar a Deus?
Consiste em uma entrega total e sincera de nossa vida àquele que nos deu vida.
Olhar para o meu irmão e enxergar Deus.
E talvez possamos até pensar que fazemos isso, mas se mergulhar de fato, vemos que falta muito ainda, muito mesmo.
Façamos um breve exame de consciência:
Eu concordo com a fé que professo ou coloco em dúvida, faço questionamentos a algumas realidades e ensinamentos? Eu rezo todos os dias com o coração aberto, mesmo naqueles dias que não tenho vontade? Será que deixei-me levar pelo desânimo? Me revoltei contra Deus? Será que já frequentei a lugares, seitas e cultos contrários a fé católica que eu professo? Será que na minha ansiedade por saber o que vai acontecer na minha vida, o que vou conquistas, busquei cartomantes, videntes, feiticeiros, benzedeiras? Não confiei em Deus? Será que tenho sido orgulhoso ou vaidoso, ou teimoso, ou arrogante, ou malcriado, ou invejoso? Será que amo mais ao dinheiro, bens materiais, pessoas, situações do que amar a Deus?
Poderia ficar aqui listando tanta coisa que temos vivido, e que nos permite ver que não amamos a Deus de todo coração. Mas, prefiro parar por aqui, porque vejo que minhas misérias são incontáveis e preciso melhorar muito para viver uma vida de santidade.
Mas isso é muita radicalidade. Não, não é.
É um trabalho que devemos fazer conosco mesmo diariamente buscando ser melhor.
Permita-me voltar à pergunta: Tenho amado a Deus de todo o coração?
A reflexão não é para que você se sinta a pior pessoa do mundo, afinal, você não é essa pessoa ruim. Você tem seu valor, e mais, tem uma pessoa que está contigo, te renovando, fortalecendo e te fazendo melhor todos os dias. Se eu não me vejo melhor a cada dia, é sinal que eu não vejo a Deus, porque Deus habita em nós. Somos obras de sua criação, somos sua imagem e semelhança (cf. Gn1,26-28).
Talvez eu não seja a melhor pessoa para falar sobre santidade, porque me vejo muito distante desse chamado, desse ideal de vida. Mas estou no caminho, estou buscando. E confesso que parei pra refletir bastante sobre a minha vida, o que eu tenho e posso oferecer a Deus. São muitas coisas, muitas mesmo. Como não é sobre mim, é sobre nós, não vou entrar em fatos particulares e pessoais.
Quando falamos sobre santidade, nos vem logo a mente pessoas que de maneira heroica entregaram suas vidas a Deus em favor do Evangelho e da Salvação das Almas.
O que dizer de São José Luís Sanchez Del Rio? Foi um jovem mexicano que aos 14 anos foi perseguido e torturado pelos oficiais do governo mexicano por não negar sua fé. Sofreu muito nas mãos deles, mas não abandonou Jesus. Suas últimas palavras antes de ser executado foram “Viva Cristo Rei”. Se tornou um testemunho de coragem e compromisso com Cristo.
O que dizer do Beato Rolando Rivi? Foi um jovem seminarista italiano muito conhecido pela sua fé viva e intensa, pelo amor a Jesus. Foi martirizado também aos 14 anos, por não negar e testemunhar sua fé. Foi sequestrado ao sair da Igreja e torturado por 3 dias antes de ser morto, assassinado com dois tiros por comunistas no contexto da 2ª Guerra Mundial. Seu maior desejo era levar Jesus a quem não o conhece. Ser missionário do Amor. E assim se tornou, não neste mundo, mas na Glória celeste.
O que dizer de Santa Gianna Beretta Molla? Foi uma mulher santa, esposa, médica. Seu desejo enquanto solteira era vir ao Brasil, se tornar médica missionária para oferecer o que podia aos mais necessitados. Os planos de Deus para ela eram outros, se casou, teve 4 filhos. Em sua última gestação, descobriu um tumor no útero. Era uma situação bastante complicada, sua vida estava em risco. A sugestão que lhe foi dada era de um aborto para que tivesse sua vida preservada. Mas ela fez opção de não interromper a sua gestação. Ela seguiu até o fim. Sua filha nasceu, bela e saudável, mas ela acabou não resistindo uma semana após dar à luz.
O que dizer de Santa Zelia (mãe de Santa Teresinha)? Uma grande mulher, que inicialmente tinha inclinação à vida religiosa, mas logo descobriu e discerniu que sua vocação era o matrimônio. Era dona de uma pequena fábrica de rendas e se casou com São Luis, um relojoeiro. Construíram uma família grande, foram 9 filhos, sendo que 4 morreram prematuramente. Foi acometida de uma doença que a levou ficar muito enferma e lhe tirar a vida, não viu Santa Teresinha ir para o Carmelo e nem se tornar uma santa dos nossos tempos.
O que dizer da brasileira Beata Albertina Berkenbrock? Uma jovem brasileira que foi brutalmente assassinada, degolada com um punhal, aos 12 anos em Santa Catarina, aos 12 anos, por resistir a uma tentativa de estupro. Filha de agricultores, conhecida como exemplo de resistência e pureza, e também pelo seu testemunho de fé e fidelidade a Deus em meio a um ato de violência.
O que dizer de São Pier Giorgio Frassati? Um jovem que tinha em sua vida o ideal da vivência ao Evangelho. Por onde passava tocava a todos com o dinamismo, alegria e caridade com que vivia o Evangelho. Era amante das montanhas, gostava da atividade de Escalada. Foi um jovem que viveu com fama de santidade, tanto é que São João Paulo II o chamou de “o Homem das 8 Bem-Aventuranças”. Aos 24 anos morreu em decorrência de uma Poliomielite muito agressiva em que não houve tempo de ser tratada. Seu legado e testemunho percorreram e percorrem por toda a Itália. Ele deixa seu legado de santidade em meio ao mundo, através do serviço, da oração e amor ao próximo.
Eu poderia ficar aqui citando tantos exemplos de santos, beatos e pessoas que doaram suas vidas pelo Reino, pela Salvação das Almas, por Jesus. São tantos, mas vejo que talvez não seja o melhor meio de te fazer acreditar que a Santidade é possível. Talvez esteja se questionando porque exemplos tão pesados, eu diria tristes, de pessoas que alcançaram a santidade tendo sua vida ceifada pelo martírio ou doença. A santidade nos chama a morrer por Jesus, mas não quer dizer que seja no sangue, às vezes vai ser no dia-a-dia, tendo que abrir mão de coisas, situações, conforto, para que Jesus seja conhecido. Estaria disposto a abrir mão de suas ideologias e convicções para que a vontade do Senhor reine sobre você e a partir de você? Santidade é oferta de vida. É confiar que sempre terá o Senhor à frente. É se deixar ser possuído por inteiro pelo desejo de ser uma pessoa melhor, que ama os irmãos, a si mesmo, e principalmente, a Deus. É fazer o bem. E aqui trago algo que sempre me coloco a refletir. Papa Francisco na Exortação Gaudete et Exsultate, nos traz uma fala bastante interessante de como devemos viver e buscar a santidade. Ele diz que devemos ser “santos ao pé da porta”, ou seja, pessoas imperfeitas que se permitem consumir no dia-a-dia, nas coisas que a vida nos impõe viver no quotidiano. É fazer as coisas ordinárias da vida da melhor maneira, sempre pensando que pode ser a última vez.
Não adianta a gente querer ser diferente, fazer coisas extraordinárias, se estamos neste mundo como humanos imperfeitos em busca Daquele que é perfeito.
Mas retornando à fala do Papa Francisco sobre os “santos ao pé da porta”. Pela nossa vida, nossa história, passam inúmeras pessoas. Algumas são tão especiais que deixam marcas, deixam rastros. São santos ao pé da porta. Aquelas pessoas que você é capaz de olhar para elas e suas vidas e dizer: “um dia quero ser igual essa pessoa”. E você sabe que elas não fizeram nada de extraordinário, somente viveram sua vida pelo Senhor e para o Senhor. Eu poderia facilmente citar umas 10 pessoas que conheci que tiveram uma vida de santidade. Seja pela dor, pelo amor, mas sobretudo, por Jesus. Pessoas que nos encorajaram na fé com uma palavra, brincadeira, convivência, atitude, abraço, sorriso, enfim, fez com que você pudesse ver Deus através deles. E sabe, muitas vezes ficamos nessa ânsia pela santidade e nos prendemos a um tutorial ou manual do que tenho que fazer ou deixar de fazer para ser santo. Se eu não fizer isso ou aquilo não serei santo. Ei, talvez seja hora de falar menos e fazer mais. Viver uma vida de santidade não é imitar ou copiar simplesmente as virtudes das pessoas e outros que já gozam da glória celeste. A nossa vida é única, nós somos únicos, e a cada um de nós Deus chama de um modo a ser santo.
Olhe pra você, pra sua vida, o que você precisa melhorar? Será que tenho olhado meus irmãos com os olhos de Jesus? Como aquele que ama e acolhe, ou tenho sido indiferente aos gritos de socorro do meu próximo. É Jesus que habita ali. Pode ser a pior pessoa, quem o despreza, é a mim que despreza, nos diz Jesus (cf. Lc 10,16).
E digo, não devo fazer isso, ser acolhedor porque Deus quer, mas porque entendi qual a minha missão neste mundo. SER LUZ.
Eu tive a graça de trabalhar por pouco mais de 6 anos em um hospital. Que experiência incrível. A cada dia uma surpresa, boa ou ruim, ou até as duas. Ali pude realmente aprender o que é a vida e qual o nosso verdadeiro fim. Pude ter contato com histórias tristes e alegres. Pessoas que só queriam um pouquinho de amor, carinho e atenção no fim de suas vidas. Algo que hoje entendo e posso dizer que vidas importam, e falo algo que tem se tornado como que uma frase de impacto pra mim NINGUÉM TEM O DIREITO DE DESISTIR DE NINGUÉM.
Eu vi famílias (pai, mãe e filhos) se perdoarem no momento mais difícil da vida. Talvez nos questionemos, o motivo pelo qual essa reconciliação não veio antes. Porque aquele foi o momento de purificação e transbordamento do amor entre eles. Simples assim. Aquele era o momento.
Eu vi pessoas chegarem sozinhas, tristes, abandonadas, sem ter ninguém por elas e assim encerrar suas vidas.
Eu vi filhos entregando seus pais a Deus.
Vi pais entregando seus filhos a Deus.
Sofri com muitos ali, muito mesmo. Não tem como ser indiferente. É uma pessoa.
E quando era preciso levar uma palavra de ânimo e encorajamento, mas ninguém mais tinha esperança.
Me recordo de um caso, talvez o que mais tenha me marcado nesse tempo. Foi rezar com uma amiga e sua mãe, eu nem palavras tive pra rezar em voz alta, só pedi que ela fizesse a oração dela naquele momento. Choramos. Me despedi dessa amiga. Ao sair do quarto em instantes a mãe tinha encerrado sua vida. Confesso que foi bem difícil viver aquele momento. Por meses me senti mal, toda vez que recordava da situação, eu trazia um sentimento muito ruim e forte de culpa. Com muito custo me permiti entender que essa é a lei da vida e vamos passar por isso. Eu só precisava estar ali naquele momento para entender isso.
Aprendi que o momento importa mais que os planos que fizemos ou vamos fazer. O agora é que importa. Eu tenho que ser bom agora, eu tenho que mudar agora, eu tenho que buscar minha felicidade agora, eu tenho que estender a mão agora. Daqui a pouco pode ser tarde demais.
Mas nem todos os momentos foram tristes e difíceis.
Quanta alegria quando novas vidas vinham ao mundo. Ver as lágrimas escorrendo pelo rosto do papai e mamãe, e toda a família vibrando de alegria com aqueles que acabavam de chegar.
Eu me permiti fugir um pouquinho da centralidade da reflexão, para que possamos entender que ali não há diferença entre pessoas, pelo menos não deveria existir. Eu pude ali ver pessoas que foram santas voltando ao Santo dos Santos.
E quantas histórias, quantos testemunhos me fizeram ver que eu preciso todos os dias buscar ser uma pessoa melhor.
São reconhecidos? Você os conhece? Talvez sim, ou não. Mas deixaram marcas na vida de pessoas. E mais do que deixar marcas, deixaram um pouquinho de Deus. Talvez nunca tivessem entrado em uma Igreja, ou sequer falado o nome de Deus, mas suas vidas eram a perfeita Adoração a Deus. É na vida que nos encontramos com Deus disfarçado de pessoas como você e eu. É na vida. Uma pessoa que deseja viver a santidade observa e busca viver os mandamentos, busca viver o que nos ensina as Sagradas Escrituras, tem uma vida Sacramental, tem uma vida de oração. Mas além de tudo isso, é uma pessoa que se deixa ser usada por Deus em favor do irmão. Santidade é fazer o ordinário de maneira extraordinária.
Já não estamos mais no tempo de ser santo somente arrumando nossa cama pela manhã, não é ajudando nos afazeres de casa, não é sendo simpático na escola ou trabalho, isso deveria estar enraizado em nós.
O tempo é de ser ousado e ir às periferias do mundo atrás de quem não tem tido mais alegria de viver, porque estão abandonados por todos e perderam a esperança em Deus.
Devemos ser esses “mensageiros da esperança”, porque a esperança não decepciona (cf. Rm 5,5). Santa Teresinha nos ensina que “não é bastante amar, é preciso prova-lo”, e isso só será possível se sairmos da zona de conforto e formos ao encontro dos irmãos. Quantos jovens hoje estão distantes de suas famílias, de bons modos. Seus familiares já não têm mais força pra lutar por eles, se veem abatidos e cansados. Vamos nos aproximar e ver em que podemos ajudar. As vezes aquela frase que diz que santo de casa não faz milagre é muito verdadeira, e nós temos a graça de poder mudar essa realidade.
Quantas pessoas tem em sua casa pessoas que estão às margens de uma vida reta e santa. Estenda sua mão e peça ajuda. Não é fácil lidar sozinho com esses males que se fazem tão presentes hoje em dia.
Eu tenho a graça de estar servindo como Ministro da Eucaristia, e quando vou visitar os enfermos, o que mais me deixa triste é ver que eles esperavam ansiosamente pela minha chegada com Jesus, para que pudessem pedir força e dignidade para o fim de suas vidas. Posso perceber que muitos destes enfermos estão sedentos pelo Pão do Céu, a Eucaristia, mas muitas vezes eles querem alguém pra conversar, para contar piada, para estar com eles, porque a fome deles é de carinho e atenção. Coisa que não temos oferecido aos nossos. Ah se fizéssemos o compromisso de deixar por alguns momentos nosso celular de lado e fôssemos fazer uma visita a um enfermo. Certamente você sairia visitado. E posso testemunhar isso, pois vivo isso no dia-a-dia.
Quantas vezes fui visitar um enfermo e voltei desejando ser uma pessoa melhor.
Quantas vezes fui visitar um enfermo e voltei também arrasado porque vi e sofri junto com eles suas dores e palavras duras. Muitas vezes cheguei em casa chorando e refletindo tudo o que havia ouvido.
E uma das coisas que mais me marcou foi quando ouvi: “eu queria tanto que meus filhos viessem me ver mais vezes”. Acho que não preciso dizer mais nada.
Houve uma vez que não estava bem, lutando diariamente contra mim mesmo, quase desistindo. Deus me inspirou o desejo de fazer uma visita a um casal ao qual tenho grande carinho e admiração. Saí do trabalho, não avisei pra ninguém onde estava indo e nem fazer o que. O que era uma visitinha rápida se estendeu. Ouvi histórias, demos risada, conversamos muito, rezamos. Eu saí dali uma pessoa totalmente transformada. É como se eu tivesse levado uma injeção de vida novamente.
Enfim, essa é a real busca pela santidade. Fazer coisas que estão ao nosso alcance.
São Francisco de Assis nos ensina a “fazer o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”. Precisamos passar os nossos dias fazendo e vivendo como se já gizássemos da glória celeste.
Enquanto eu meditava e escrevia, me questionava e estendo a você:
O que eu preciso fazer para verdadeiramente viver uma vida em santidade?
Será que realmente estou disposto a viver pelo Senhor?
Quais rastros tenho deixado neste mundo?
Quem são os santos de hoje em dia aos quais tenho buscado a intercessão para ser melhor?
Reconheço os santos ao pé da porta do meu tempo?
Lembremo-nos e que possamos trazer para nossa vida o ensinamento de Santa Teresinha: “Passarei o meu Céu, fazendo o bem sobre a Terra”.
Seja Santo!
Jesus te ama!
