ARTIGO

O SANTÍSSIMO SACRAMENTO E O CULTO EUCARISTICO NA LITURGIA DA IGREJA

Artigo publicado em 2018

INTRODUÇÃO

Se pudéssemos dizer, qual o maior tesouro que há na vida da Igreja, sem dúvida esse tesouro, grande e magnífico é a Eucaristia. Porém, por muitas vezes esquece-se de seu grande valor, ou omite-se, acreditando que é possível, modificar a sagrada Liturgia e o “mysterium” segundo a nossa própria vontade, ignorando então, a tradição vivenciada pela Igreja, desde Cristo até os nossos dias, que nos leva a comunhão com todo o Corpo de Cristo que é a Igreja. Quero através desta monografia, a partir da sagrada Liturgia, passando pela Sagrada Escritura e chegando até o Sagrado Magistério, mostrar o valor dos sacramentos, de maneira especial, do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que é o Corpo e Sangue de Cristo, para que vivenciemos o mistério de Cristo, como Cristo deixou à Igreja e como foi se desenvolvendo ao longo dos anos até os dias de hoje.

Que através das linhas deste texto, nosso Senhor possa dar-nos Sua graça, para compreendermos seus mistérios com nossos olhos da fé e assim o vivenciarmos melhor em nossa vida.

1-      A SAGRADA LITURGIA

A Igreja, enquanto Corpo místico de nosso Senhor nos convida a todo instante, a todo o momento, a penetrarmos no mistério salvífico de Cristo, de uma maneira muito especial e especifica através da Sagrada Liturgia, pois é através da liturgia que “se exerce a obra de nossa redenção” (SACROSANCTUM CONCILIUM, 1969, pág. 259). Perceber tamanha importância da liturgia nos chama atenção para, de maneira mais a fundo, compreender o que é a liturgia e como viver bem os sagrados mistérios, pois é através destes que se manifestam a todos o mistério de Cristo que é a própria natureza da Igreja (cf. SACROSANCTUM CONCILIUM, 1969, pág. 259) e é através da liturgia que se torna manifesto o “sinal visível da comunhão entre Deus e os homens por meio de Cristo” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 302).

Perceber que a liturgia é o lugar onde se manifestam o mistério de Cristo, leva-nos a afirmar que participar de tal mistério é participar da vida e da ação salvifica de Cristo, que mesmo sentado à direita do Pai, como professamos no credo Niceno Constantinopolitano, continua a agir na vida Igreja e assim nos diz a Sacrosanctum Concilium no parágrafo 7(1969, pág. 264)

“Com razão, pois, a Liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a cada sinal, realizada a santificação do homem; e é exercício o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros. Disto se segue que toda a celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote, e de Seu Corpo que é a Igreja., é uma ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.”

1.1-           A OBRA DA LITURGIA NA VIDA DA IGREJA

 

Assim como um corpo humano, ao passar do tempo, se desenvolve, toma forma e caráter próprio, assim também, ao longo do tempo, o Corpo de Cristo foi adquirindo forma, foi adquirindo corpo e sua maneira especifica de cultuar Àquele que é a cabeça da Igreja através da Sagrada Liturgia. Mas de uma maneira especial percebemos dois pontos nos quais se desenvolveram a Sagrada Liturgia:

 

1.1-1-     A LITURGIA COMO ATUALIZAÇÃO DO MISTÉRIO PASCAL

 

Na história da humanidade, em todo o tempo existiram muitos acontecimentos, com sua determinada importância em seus momentos diferentes. Se perguntarmos as pessoas, cada uma lembrará de um acontecimento em si que de alguma forma a tenha marcado. Porém, em meio a todos estes, existe um que não ficou lá trás e não pode, de modo algum, ficar no passado, mas precisa continuar vivo na vida e na memória de cada um de nós, que é o mistério pascal de nosso Senhor Jesus Cristo. O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 1085(1998, pág. 306) nos diz:

 

“O mistério Pascal de Cristo, ao contrário, não pode ficar somente no passado, já que por sua morte destruiu a morte, e tudo o que Cristo é, fez e sofreu por todos os homens participa da eternidade divina, e por isso abraça todos os tempos e nele se mantém presente. O evento da cruz e da ressureição permanece e atrai tudo para a vida.”

 

A partir desta afirmação, podemos confirmar que os atos litúrgicos, de maneira muito especial, a Santa Missa, nos faz adentrar numa realidade antiga e nova ao mesmo tempo: antiga pois é o mesmo mistério Pascal de Cristo de dois mil anos atrás e novo porque é atualizado em nosso meio na liturgia da Igreja, que é a ação do próprio Cristo no meio de nós e que age na Sua Igreja.

 

1.1-2-     A LITURGIA COMO PRELÚDIO DA VIDA FUTURA

 

Muito nos é necessário, lembrar, ou até mesmo relembrar que todos nós, participamos hoje daquilo que chamamos de “liturgia terrestre”, tudo isso pois, participantes da Igreja peregrina, que caminha sobre a terra, na esperança de adentrar na glória de Deus junto da Igreja triunfante, participamos da liturgia através de sinais e instrumentos humanos. Porém isso não diminui em nada o valor da liturgia para nós. Muito pelo contrário, participar da liturgia terrestre, nos faz estar intimamente ligados a liturgia celeste, conforme nos indica a Sacrosanctum Concilium no parágrafo 8(1969, pág. 264):

 

“Na liturgia terrestre, antegozando participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusálem, para a qual, na qualidade de peregrinos , caminhamos. Lá, Cristo, está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do tabernáculo verdadeiro; com toda a milícia do exército celestial, cantamos um hino de glória ao Senhor e, venerando a memória dos santos, esperamos fazer parte da sociedade deles; suspiramos pelo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que Ele, nossa vida, se manifeste e nós apareçamos com Ele na glória.”

 

1.2-     A ESSÊNCIA DA LITURGIA

 

Ao falar da Sagrada Liturgia, talvez neste momento não nos seja necessário fazer um caminho histórico, para mostrar como a mesma chegou até os dias de hoje como a conhecemos. Mas acredito ser extremamente necessário passarmos por aquilo que a liturgia tem por essência, pois se a perdermos, perderemos de fato o sentido da mesma para nós e para toda a Igreja.

Antes de entrarmos de fato na essência da liturgia, vamos partir do contexto atual em que vivemos: a secularização. A secularização nada mais que do que a exclusão de Deus das realidades humanas. Diante de tantas realidades humanas, sociais, tentam a todo custo, mostrar e provar que não há necessidade alguma de ligar tudo isso a Deus, mas sim que nós homens, temos a autoridade para reger, criar e fazer tudo sem depender de um Ser divino.O problema é que esta realidade por tantas vezes tem adentrado no seio da Igreja, de maneira camuflada sob dois aspectos de maneira especial que por muitas vezes se mostram na maneira que muitos celebram e preparam a liturgia, suas celebrações e ritos: a redução da divindade de Deus à nossa realidade humana e a negação da transcendência.

Estes dois problemas nos devem ligar um sinal de alerta, pois nos é necessário relembrar que fazemos parte de uma Igreja que é humana e divina, que é visível, mas também ornada com dons invisíveis (cf. SACROSANCTUM CONCILIUM, 1969, pág. 259) pois esta mesma Igreja é de fato, o Corpo místico de Cristo que continua agindo e trabalhando no meio da humanidade no qual por meio dela nos tornamos participantes do mistério da redenção de Cristo por meio do mistério Pascal, tornando-nos participantes deste mistério e membros deste Corpo vivo e místico de nosso Senhor. Ao nos tornarmos participantes deste mistério, tão grande mistério de nossa fé, nos faz contemplar a cidade Santa, a Jerusalém celeste, como citei anteriormente, entoa um grande hino de louvor ao seu Senhor, que eleva seus corações ao alto, em busca da unidade deste Corpo, que presta o verdadeiro culto de adoração ao seu Senhor. Diante disso, identificamos estes dois problemas citados acima, que constantemente encontramos na liturgia e em todas as formas de ritos e celebrações que a compõe.

   Em nossos dias, não é tão estranho, nos depararmos com celebrações litúrgicas onde, o celebrante ou a equipe de liturgia ou juntamente com a mesma, constroem uma celebração litúrgica conforme seu bel prazer ou conforme justificam ser justo por conta da realidade cultural daquele lugar onde acontece a celebração ou rito litúrgico. Ao pensar assim, estamos de certa forma rebaixando Deus e sua divindade ao nosso tempo, a nossa realidade, como se Ele tivesse que adentrar em nossa realidade, tirando a autoridade dele, dando-a àquele que está a frente da celebração, ao ponto de ditar como se acontecerá a celebração litúrgica. Ora, pensar assim é esquecer que através liturgia, Deus nos torna participantes do seu mistério salvifico. Então não é Deus que adentra a nossa realidade, mas sim nós que nos elevamos a Deus, pois através liturgia, do correto culto a Deus, nós nos tornamos “participantes do modo de existir do céu, do mundo de Deus, deixando, assim, transparecer a luz do mundo divino em nosso mundo” (cf. RATZINGER, 2015, pág 17).

   E o segundo problema se dá quando também em muitas das celebrações, atribui-se tal liturgia como a festa da comunidade, a partilha entre o povo de Deus simplesmente, abandonando qualquer relação com o transcendente, tirando o olhar do vertical, olhando apenas de modo horizontal. Seria um equivoco muito grande fazer tal coisa, pois tal atitude abandona totalmente o sentido do mistério Pascal no qual a,liturgia nos torna participantes, adentrando numa realidade completamente humana e longe de Deus, não mais rebaixando a divindade até nós, mas agora numa atitude mais grave, excluindo o divino de nossas celebrações.

   Encontramos esses dois problemas de maneira explicita em Êxodo 32, quando o autor sagrado vai nos narrar sobre o bezerro de ouro: Moisés está no Sinai, recebendo os direcionamentos de Deus a respeito da maneira de cultuá-Lo, porém o povo, já impaciente pela demora de Moisés, procura Aarão e ele constrói um bezerro, ou um novilho de ouro, para que diante dessa imagem, o povo pudesse se sentir amparado por Deus e a Ele pudesse prestar culto. Porém Ratzinger, quando escreve o livro Introdução ao espírito da liturgia e tratando desta mesma passagem bíblica (cf. RATZINGER, 2015, pág. 19), nos faz perceber duas coisas: o povo cai na idolatria, pois acabam por violar as leis prescritas por Deus no alto do Sinai, de maneira especial quando Deus proíbe a confecção de imagens, fazendo assim, a divindade se tornar algo humano, visível e puramente compreensível. Ao criar o novilho de ouro, a intenção de Aarão não é atrair pra si a figura de um novo deus, mas sim de transparecer a  figura do mesmo Deus que havia os livrado do Egito. Porém em tal ato, Aarão acaba por rebaixar Deus até nossas dimensões, onde é Deus que vem a nós e não nós que iremos até Ele. Na mesma passagem bíblica, encontramos uma segunda coisa, que vem de encontro com o segundo problema por mim citado a cima: Moisés sobe ao Sinai para receber de Deus os direcionamentos para a liturgia, a moral e os direitos do povo, constituindo-os, não como todas as outras nações, mas como a nação santa, escolhida e separada por Deus, com a qual existe uma aliança, também feita ali no Sinai. Porém, Aarão ignora tudo aquilo que Deus havia pedido ao povo, como maneira de culto, como regra de vida e cria-se sua própria maneira de cultuar, fazendo da liturgia algo criado por eles mesmo, se tornando uma grande festa (Ex. 32,5 – BIBLIA JERUSALÉM, 1998), porém uma festa preparada não por Deus, mas pela própria comunidade, como diz Ratzinger, confirmando a si mesmo, saindo da adoração a Deus, para um circulo em torno da própria comunidade, onde se come, bebe e diverte-se. Debruçar o olhar sobre essas duas problemáticas nos faz perceber que a essência real e verdadeira da liturgia vem do próprio Deus, pois é Ele que foi preparando tudo, ao longo do tempo, ao longo dos séculos, dos anos, como disse no inicio deste texto, como um corpo que vai sendo gerado, que vai evoluindo aos poucos conforme a Sagrada Tradição da Igreja. É dessa forma que passamos a ser de fato, participantes do mistério de Cristo.

 

2- A AÇÃO DE CRISTO NA LITURGIA ATRAVÉS DOS SACRAMENTOS

Ao percebermos a liturgia como aquilo que nos faz participantes do mistério Pascal de Cristo, precisamos perceber que por meio da Sagrada Liturgia, Cristo se manifesta através de sinais, que são sensíveis e perceptíveis a nós através daquilo que chamamos de sacramentos.

Sacramento significa para nós sinais visíveis da graça de Deus no meio de nós. Tudo isso toma um significado maior que lembramos que Cristo está vivo, ressuscitou dos mortos, está sentado a direita do Pai, conforme professamos no Credo Niceno-Constantinopolitano, porém continua agindo no meio de nós, através do Seu Corpo que é a Igreja. E essa ação se dá através dos sacramentos, que como nos afirma o Catecismo da Igreja, pois eles “realizam eficazmente a graça que significam em virtude da ação de Cristo e pelo poder do Espírito Santo”. (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 306)

            De muitas maneiras se torna perceptível a presença de Cristo, que age no meio de nós: Percebemos através das ações litúrgicas, através do sacrifício da Santa Missa, tanto no ministro quanto nas espécies Eucarísticas, mas também está presente nos sacramentos e também nas Sagradas Escrituras (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, 307).  Mas de maneira especial, os sacramentos estão presentes em todas etapas da vida cristã do fiel católico, manifestando assim, a presença e ação constante de Cristo na Igreja e no meio do povo de Deus. E como bem sabemos, são sete os sacramentos: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Unção dos enfermos, Ordem e o Matrimônio (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 339) e a partir do Concilio de Trento passamos a compreender que os sacramentos atuam “ex opere operato”, ou seja, pelo fato da ação ser realizada. Ou seja, “o sacramento não é realizado pela justiça do homem que o confere ou o recebe, mas pelo poder de Deus.” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 318 abud. STO. TOMÁS DE AQUINO, S. Th. III, 68,8)  Porém diante deste sete sinais, destacamos de maneira especial a Eucaristia, no qual o doutor Angélico chama de “sacramento dos sacramentos”, pois “todos os demais sacramentos estão ordenados a este como a seu fim.” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 339 apud. Sto. Tomás de Aquino, S. Th. III, 65,3)

3- O SANTISSIMO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

“A Igreja e o mundo tem grande necessidade do culto eucarístico. Jesus espera por nós neste Sacramento do Amor. Não nos mostremos avaros com o nosso tempo para ir encontrar-nos com Ele na adoração, na contemplação cheia de fé e pronta para reparar as grandes culpas e os crimes do mundo. Não cesse nunca a nossa adoração.” (JOÃO PAULO II, 1980, disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1980/documents/hf_jp-ii_let_19800224_dominicae-cenae.pdf)

Iniciamos aqui, o ponto central desta monografia, que é o Sacramento da Eucaristia e a forma de culto na liturgia da Igreja.E não poderia de forma alguma, começar a tratar sob este tesouro da Igreja, senão for com essa chamada de atenção de João Paulo II através desta carta que foi destinada aos bispos e aos sacerdotes sobre o culto Eucarístico. Ao escrever tal carta, fica explicito para nós, a preocupação do papa daquele ano com relação ao culto deste tão grande sacramento nas Igrejas do mundo todo.

Muito refleti de como começar a falar a respeito da Eucaristia e não poderia começar expressando a grandiosidade deste sacramento, senão relembrando que a Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1998, pág. 365 abud. LUMEM GENTIUM, 1964) A partir de agora, trilharemos um caminho, buscando as evidências deste grandessíssimo Sacramento na Sagrada Escritura e a partir daí daremos um salto, refletindo sobre a Eucaristia na Mysterium Fidei, de Paulo com a finalidade de, compreendendo melhor este sagrado mistério, vivermos da melhor maneira em nossas celebrações e também o valor do Augusto Sacramento.

3.1- A PREFIGURAÇÃO DA EUCARISTIA NO ANTIGO TESTAMENTO

            Ao iniciarmos esse caminho pela Sagrada Escritura, buscando as evidências a respeito da presença e do valor deste augusto Sacramento, começamos inicialmente pelo primeiro livro sagrado: o livro do Gênesis.

            O primeiro livro da Bíblia nos trás a figura de um homem, no qual nós não sabemos muita coisa, mas sabemos que era o rei de Salém e seu nome é Melquisedec. Melquisedec era rei e sacerdote, como nos mostra o rodapé da Biblia Jerusalém, era fiel ao mesmo Deus de Abraão e Salém, lugar onde governava, é comparada por muitos com a Jerusalém, lugar onde Deus escolheu morar (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 52). E nestes poucos relatos que encontramos de Melquisedec, ser mencionado como “sacerdote do Deus altíssimo” no capitulo 14 do livro do Gênesis. Ao atribuir Melquisedec desta maneira, logo nos recordamos de Cristo, que conforme o capitulo 7 de Hebreus é chamado de Sumo Sacerdote celeste, mencionando até mesmo no inicio do capitulo que a Sagrada Escritura não mencionou sobre os antepassados ou sobre os descendentes, por essa semelhança de Cristo, pois Cristo, Sumo Sacerdote, não está condicionado ao tempo e nem a genealogia (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 52). Tendo Melquisedec, traços de Cristo, é também atribuído o “pão e vinho” que o mesmo trouxe no versículo 18, como o mesmo Pão e Vinho que Cristo iria consagrar, tornando-se Seu Corpo e Seu Sangue, que se tornariam sinais visíveis da nova e eterna aliança.

            O segundo relato bíblico que precisamos citar como prefiguração da Eucaristia, é um episódio por todos conhecidos: o êxodo do Egito. Moisés foi chamado e escolhido por Deus para libertar o povo de Deus da escravidão do Egito, leva-los a uma aliança com Deus e por conta desta, até a Terra prometida por Deus àqueles que viverem com fidelidade esta aliança. Encontramos em Moisés, os traços de Cristo, que no Novo Testamento, vem para nos libertar, desta vez não do Egito, mas do pecado e da morte, conduzindo-nos muito mais do que a uma terra, mas sim a pátria celeste, a Jerusalém Santa. Neste Êxodo, o povo recorre a Moisés, pois sente fome e então, como lemos no versículo 4 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 124), Deus promete ao povo que faria “chover o pão do céu”. Este pão que Deus fez cair do céu é no Novo Testamento, o próprio Cristo, como Ele mesmo afirma no Evangelho de João capitulo 6: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo.” (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1859) Se no êxodo do Egito, o maná que desce do céu serve de alimento durante a caminhada deles até o destino final, a Eucaristia, o Pão consagrado por Cristo, serve de alimento espiritual para nossa peregrinação terrestre rumo a Jerusalém celeste. Mas agora não mais como apenas alimento, mas como presença real do próprio Cristo no meio de nós, que promete no final do Evangelho de Mateus: “E eis que estou convosco todos os dias.” (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1758)

            Por último, voltamos alguns capítulos do livro do Êxodo e no capitulo 12, nos deparamos com a festa da Páscoa, onde Deus revela a Moisés como deveria acontecer a Páscoa dos judeus naquela época: imolando um cordeiro, de maneira especial sem defeitos e pão ázimo. O povo deveria imolar o cordeiro, bebendo seu sangue e comendo junto o pão pedido por Deus. (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 117) A páscoa dos judeus é apenas uma preparação, uma prefiguração para a Páscoa cristã, onde Cristo passa a ser o “Cordeiro de Deus” como vai dizer em João 1,29 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1844), que é imolado na cruz, que é comido na ceia, atribuída a última ceia, onde acontece a instituição da Eucaristia relatado em alguns livros da Sagrada Escritura, como no Evangelho de Marcos, primeiro dos Evangelhos. (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1781)

            É claro, ao lermos e aprofundarmos nestes três textos bíblicos, a presença de sinais que indicam a Eucaristia e sua instituição por Cristo, que tempos depois, se tornaria o Santissimo Sacramento, sendo para nós, presença de Cristo em Corpo, Sangue, Alma e divindade.

3.2- A EUCARISTIA NO NOVO TESTAMENTO

            Depois de trilharmos o caminho da Eucaristia no antigo testamento, adentramos agora no novo testamento, onde veremos de fato, a instituição da Eucaristia, que é narrada primeiramente por Paulo, na primeira carta aos Corintios e depois pelos sinóticos. Então trilharemos exatamente esse caminho, passando pelo texto paulino, adentrando nos sinóticos de maneira breve, porém sucinta e por último, adentraremos nos escritos joaninos, de maneira especifica, no discurso eucarístico, que se encontra no capitulo 6 do Evangelho de João.

3.2.1- A EUCARISTIA SOB A ÓTICA DE PAULO

A primeira coisa que nos é necessária é voltarmos nosso olhar para a data em que o texto de Paulo aos Corintíos foi escrito: aproximadamente pelos anos 51 e 52 d.C.. Tudo isso para percebermos de maneira mais aguda, que este escrito paulino é anterior aos evangelhos e até mesmo o evangelho de Marcos, o primeiro dos quatro evangelhos, que foi escrito aproximadamente pelo ano 70 d.C. Nos é necessário voltar nesta questão das datas para entendermos que, o primeiro relato sobre a instituição da Eucaristia, são provenientes de Paulo neste texto à comunidade de Corinto. Porém Paulo, antes de relatar este acontecimento, faz questão de dizer no versículo 23 do capitulo 11 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 2007) que ele recebeu tudo isso do próprio Senhor, porém não como uma profecia, ou uma revelação mística, mas, da tradição dos apóstolos que já traziam consigo o hábito da celebração eucaristica, de repetir o que Jesus havia feito na última ceia. E Paulo narra, relembrando a comunidade aquilo que já era do saber de todos, pois já se celebrava Eucaristia ali, que Jesus toma o Pão e o cálice dizendo ser seu Corpo e Seu Sangue, que é Sangue da nova e eterna aliança (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 2007).

Com toda certeza, o texto de Paulo serviu de inspiração para os demais textos da instituição da Eucaristia, pois a intenção de Paulo era corrigir alguns erros que estavam acontecendo no meio da comunidade durante as celebrações e talvez dessa forma, os demais escritores sagrados tomaram a narrativa de Paulo como exemplo.

3.2.2- A EUCARISTIA SOB A ÓTICA DE LUCAS

Lucas, quando narra em Atos dos Apóstolos a vida da primeira comunidade cristã, narram a celebração Eucaristica num contexto eclesial, mostrando que era comum entre eles a “fração do pão”, referindo a celebração Eucaristica que já era celebrada, em memorial a última ceia. Já em seu evangelho, no episódio de Emaús(capitulo 24), onde os discípulos partem tristes de Jerusalém e no caminho, instruídos pelas palavras de nosso Senhor, acabam por O reconhecer no partir do Pão, na Eucaristia. Podemos com isso, afirmar que a intenção de Lucas é mostrar a comunidade que Jesus continua presente entre eles através do Pão, da Eucaristia, falando com eles por Sua Palavra.

3.2.3- A EUCARISTIA SOB O OLHAR DE MARCOS E MATEUS

Voltemos agora nosso olhar para os Evangelhos de Marcos e Mateus. Ambos, em seus escritos se preocupam em narrar o fato da instituição da Eucaristia. Marcos, de maneira mais direta, se preocupa em narrar o fato da benção do Pão e do Cálice, que agora se tornam Corpo e Sangue de nosso Senhor. (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1781)

Já Mateus, quando descreve o mesmo fato, nos trás uma informação bastante interessante, para compreendermos a importância de tal acontecimento. A informação que Mateus nos trás, de suma importância através do versículo 26 do também capitulo 26(cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1751), é o fato de eles estarem comendo. Estavam comendo, pois se tratava de uma ceia, ou, melhor dizendo, se tratava da ceia pascal, pois naquele momento, acontecia a prefiguração da entrega de nosso Senhor, que aconteceria um pouco depois na cruz(cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1755 à 1756). Ao relermos o relato da instituição da Eucaristia, de maneira muito especial nos sinóticos, podemos perceber aquilo que denominamos de “anamnesis”, ou seja, memorial. A instituição da Eucaristia se torna um memorial para eles e também para nós em nossos dias. Mas este memorial, não se trata para nós como uma simples memória, uma simples lembrança de algo que ficou no passado, que ficou para trás à dois mil anos, não. O memorial para o judeu significa tornar presente, se tornar atual, se tornar vivo e operante.

Diante desse fato, devemos corrigir o problema de que, por algumas vezes, alguns ministros apresentam o Santíssimo Sacramento, o culto Eucarístico, como uma simples lembrança, como apenas uma representação daquilo que ficou para trás e hoje se tornou apenas uma mera simbologia.  Joseph Ratzinger, ao escrever o livro Dogma e anúncio, trata deste assunto, ao falar de um erro contido no Catecismo Holandês. Assim diz Ratzinger (cf. RATZINGER, 2005, pág. 72:

“Aquilo que é essencial ao homem não pode ser comprimido nos limites de uma data histórica, precisamente não quando é algo “único” e “definitivo”: é definitivo precisamente porque continua a “valer”, permanece no seu caráter decisivo, não podendo cair para o nível daquilo que apenas foi um dia. Assim, o sacrifício de Cristo, nunca é apenas um fato de uma história que foi, para a qual nós agora lançamos um olhar retrospectivo e cujo resultado aceitamos, mas é a realidade determinante atual da vida humana. O homem vive sempre do sacrifício, não apenas faz 2.000 anos; esse sacrifício não é menos atual para ele do que era para aqueles que puderam estar presentes no seu momento histórico.”

3.2.4- A EUCARISTIA SOB O OLHAR DE JOÃO

Já João, nos dá um novo olhar com relação à Eucaristia, que talvez muitos, ao lerem as narrativas joaninas, possam interpretar que o autor sagrado tenha se preocupado em dizer outra coisa, mas não, João apenas complementa, completa, aquilo que Paulo e os escritos sinóticos já haviam trazido.

Iniciemos nossa reflexão dos escritos de João a partir do mesmo episódio da ceia pascal descrita pelos evangelistas, no capitulo 13(cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1877). Enquanto os sinóticos se preocuparam em descrever Jesus entregando aos seus discípulos o Pão e o Cálice, como Seu Corpo e Seu Sangue, João surpreende, ao narrar ao invés disto, o tão conhecido episódio do Lava-pés. Através desta narrativa, João mostra Jesus lavando o pé dos seus discípulos, mas foi algo que chocou muito os discípulos. Porém Cristo queria mostrar a eles um grandioso exemplo de humildade e de serviço, características que engrandecem o significado do Augusto Sacramento, pois Deus, em toda sua grandeza, se faz pequeno e próximo a nós através do véu da Eucaristia. E observando isso, podemos sem dúvida afirmar: para participar de fato deste memorial, precisar ter um espírito de doação e de serviço. Mais do que isso: Cristo imprimiu isto de fato ao nos dar Seu Corpo e Sangue, doando a Si mesmo, servindo-nos com a verdadeira refeição, alimento de nossa alma.

Retornemos agora, ao capitulo 6 do Evangelho de João, que nos fará compreender melhor a respeito da importância da Eucaristia. Se, no capitulo 13, João não fala diretamente da instituição da Eucaristia, o capitulo 6, trás dois episódios que vão explicitar para nós o significado e a importância deste sacramento: a multiplicação dos pães e o discurso Eucarístico.

No inicio do capitulo 6 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1856), João narra para nós a multiplicação dos pães. Este episódio faz uma alusão da Eucaristia, como cita o Catecismo da Igreja no parágrafo 1335 (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 2011, pág. 368), de maneira especial através de duas circunstancias. A primeira é o fato da multiplicação, onde Jesus realiza um milagre, ao ponto de cinco pães alimentarem uma multidão. Assim acontece com a Eucaristia: um só Corpo, o Corpo de Cristo, que agora alimenta também uma multidão. O segundo fato que nos faz perceber que este episódio se trata de uma alusão à Eucaristia, é quando no versículo 11 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1856), João diz que Jesus toma os pães e dá graças. Fica mais claro para nós esta alusão, quando recordamos que a palavra Eucaristia significa uma ação de graças, dar graças, de maneira muito especial, dar graças a Deus. Jesus realiza exatamente o mesmo ato no episódio da multiplicação dos pães e também na instituição da Eucaristia narrado pelos sinóticos.

            Iniciemos agora nossa reflexão da Eucaristia no capitulo 6 de João, a partir de um episódio que conhecemos como “discurso Eucarístico” , que inicia no versículo 22 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1857). E esse discurso se dá através de duas vertentes: Cristo como pão da vida enviado por Deus e Cristo como pão da vida, que nos dará um Pão que é seu próprio Corpo e Sangue.

Na primeira vertente exposta no seu discurso, Cristo enfatiza no versículo 35: “Eu sou o pão da vida” (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1858). O primeiro o ponto ai que nos deve chamar a atenção é o “Eu Sou”. Essa definição é a mesma que encontramos em Êxodo 3,14 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 106) usada por Deus para Se descrever a Moisés e para que Moisés O descrevesse a todo o povo. Encontramos esta mesma definição na Eucaristia, pois Jesus é o próprio Pão da vida e este Pão da vida que nos é dado no Augusto Sacramento é este mesmo “Eu sou”, que Jesus se define também em outros episódios, como luz verdadeira, como a porta, como o bom pastor, como a ressurreição e o caminho, mas de maneira especial, João diz a respeito de Jesus no livro do Apocalipse 22,13 (cf. BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 2166): “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Principio e o Fim.” De novo está presente a definição do “Eu Sou”, agora trazendo de maneira mais clara a grandiosidade de Deus que abrange a todas as coisas e que agora está presente na Eucaristia. Presença essa que nos é dada por Deus, como dom Dele, como nos diz Jesus em seu discurso na sinagoga de Cafarnaum, dizendo no versículo 38 do capitulo 6 de João, que desceu do céu não para fazer sua vontade própria, mas a vontade Daquele que havia O enviado (cf.  BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1858).

A segunda vertente encontrada no discurso de Jesus é a afirmação de que Ele, sendo o pão da vida, agora surge a promessa que nos daria um outro Pão, que seria(e é) Seu Corpo e Sangue. É muito importante mantermos nosso olhar nesta parte do discurso de Jesus,  pois aqui encontramos de maneira bem clara e objetiva a presença real de Jesus sob as espécies Eucarísticas, pois é Ele mesmo que afirma desta forma a partir do versículo 52, quando afirma: “Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós.” (BIBLIA JERUSALÉM, 1998, pág. 1859). Jesus continua afirmando, agora no versículo 55, que esta carne e este sangue são Carne e Sangue dele próprio e no versículo 58, termina por afirmar que este Corpo e este Sangue são “o Pão vivo que desceu do céu”.

No conhecido “credo do Povo de Deus”, o Papa Paulo VI nos diz:

“Cremos que como o pão e o vinho consagrados pelo Senhor, na ultima ceia, foram mudados no seu Corpo e no seu Sangue, que iam ser oferecidos por nós na Cruz, assim também o pão e o vinho consagrados pelo sacerdote se mudam no Corpo  e no Sangue de Cristo glorioso que está no céu, e cremos que a misteriosa presença do Senhor naquilo que misteriosamente continua a aparecer aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial.” (AQUINO, 2016, pág. 66 abud. cf. Dz. Sch. 1651)

Diante do discurso Eucarístico de Cristo, podemos e devemos afirmar que sim, Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento, que pelas mãos do sacerdote no rito da consagração, se torna Corpo e Sangue Cristo no meio de nós.

4- A SAGRADA EUCARISTIA NA MYSTERIUM FIDEI

            Após caminharmos sob as sagradas Escrituras e a partir dela, percebemos a Sagrada Eucaristia no antigo e novo testamento, sua prefiguração e sua instituição, seu valor e sua importância. A partir de agora, trilharemos sob este importante documento de Paulo VI, que buscou reavivar no coração dos fiéis católicos o amor pela Sagrada Eucaristia, buscando exortar os fiéis a uma melhor participação neste tão grande e inefável mistério. Contudo, não quero neste capitulo fazer um resumo do texto em sua integra ou fazer uma avaliação do mesmo, mas quero, a luz do Magistério da Igreja, compreender o valor de tão grande graça, que é a Eucaristia e este documento nos ajudará a isso.

4.1- A EUCARISTIA COMO MISTÉRIO DA FÉ

O primeiro ponto desta encíclica que quero abordar é “A Sagrada Eucaristia é um mistério de fé”. Assim inicia Paulo VI, tratando desta afirmativa, que jamais pode ser esquecida por nós diante da Eucaristia. Primeiro por realmente se tratar de um “Mysterium”, como falamos acima, se trata primeiramente de um memorial, ou seja, a realidade de 2.000 anos atrás se torna viva e atual sempre que é vivida, tendo o mesmo valor e significado. Talvez, seja esse o ponto principal que Paulo VI quis enfatizar nesta encíclica, para relembrar aos fiéis da atualidade deste sacrifício pascal de Cristo, que por muitas vezes é esquecido ou até mesmo ignorado por alguns. Quero fazer uma menção aqui, para enfatizarmos de maneira mais profunda a esse “Mysterium”, primeiramente através do Prefácio da Santíssima Eucaristia II (cf. MISSAL ROMANO, pág. 440) que é rezado na liturgia do dia de Corpus Christi e que vai dizer assim:

“Reunido com os Apóstolos na última Ceia, para que a memória da Cruz salvadora permanecesse para sempre, ele se ofereceu a vós como cordeiro sem mancha e foi aceito como sacrifício de perfeito louvor. Pela comunhão neste sublime sacramento, a todos nutris e santificais. Fazeis de todos um só coração, iluminais os povos com a luz da mesma fé e congregais os cristãos na mesma caridade.”

Ao rezarmos na liturgia eucarística com esse prefácio, fica muito claro a nós, aquilo que Paulo VI deseja enfatizar com relação ao mistério da fé que envolve a Eucaristia, pois é este mistério que nos coloca em comunhão com esse sublime momento, que se torna atual, que nos faz estar em unidade uns com os outros diante do sacrifício de Cristo, dessa ação de graças que é a Eucaristia.

Outra menção que desejo fazer, que nos fará perceber tamanho mistério da fé que envolve a Eucaristia, está na Oração Eucarística V –D (cf. ORDINÁRIO DA MISSA, pág. 126, disponível em: http://www.liturgia.pt/ordinario/ordinario.pdf). Quando observamos mais a fundo esta oração Eucarística, percebemos a atualização deste mistério durante a celebração Eucarística, de maneira especial na consagração feita pelo sacerdote. Na oração Eucarística, na parte anterior a consagração,  a oração chega a citar o “pão da vida” (cf. ORDINÁRIO DA MISSA, pág. 127, disponível em: http://www.liturgia.pt/ordinario/ordinario.pdf) em letras minúsculas, ou seja, como um substantivo comum.  Um substantivo comum tem como finalidade mostrar ou revelar alguma coisa e não alguma pessoa, não é tratada como indivíduo, mas de fato como coisa. Então anterior ao rito da consagração, estamos diante de fato do pão que ainda é pão que será oferecido, que será consagrado. Porém, após a consagração, após o “Mistério da fé” no qual reza o sacerdote ao fim da consagração, a palavra pão volta na oração, porém agora, iniciando em letra maiúscula, representando agora, um substantivo próprio. E tais substantivos representam além de outras coisas, também indivíduos, nomes, pessoas. No caso da Eucaristia, após a consagração, se torna de fato uma Pessoa, Jesus Cristo, que está de fato presente de fato no meio de nós e este é um grande mistério da fé.

Tal realidade pode talvez causar em nós uma grande incompreensão, pois de fato se trata de um grande mistério que é realizado por Cristo, pela força do Espírito Santo. Porém é ai que precisa entrar a nossa fé. E exatamente por isso Paulo VI, no exorta no número 16 de seu documento dizendo: “Sobretudo deste Mistério é necessário que nos aproximemos com humilde respeito, não dominados por pensamentos humanos que devem emudecer, mas atendo-nos firmemente à Revelação Divina.” (MYSTERIUM FIDEI, disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_03091965_mysterium.html) Citando São João Crisóstomo, Paulo VI cita no número 17:

“Inclinemo-nos sempre diante de Deus sem o contradizermos, embora o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência; sobre a nossa razão e a nossa inteligência, prevaleça a sua palavra. Assim nos comportemos também diante do Mistério (Eucarístico), não considerando só o que nos pode vir dos nossos sentidos, mas conservando-nos fiéis às suas palavras. Uma palavra sua não pode enganar" (CF. MYSTERIUM FIDEI abud. In Matth. Hom. 8,4; PG 58, 473, disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_03091965_mysterium.html

Então podemos e devemos afirmar: Diante deste tão grande mistério, somos chamados a olhar com os olhos da fé, para contemplarmos Cristo que está diante de nós, neste Augusto Sacramento.

4.2- A EUCARISTIA QUE SE REALIZA NA SANTA MISSA

            Paulo VI inicia este ponto, de tão importante compreensão para nós, fazendo memória ao Concilio de Trento, que nos ensina que a Santa Missa é o memorial, é a recordação, é a atualização “mais admirável” do Sacrifício da Cruz. (cf. MYSTERIUM FIDEI, disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_03091965_mysterium.html) O Catecismo da Igreja, no parágrafo 1402 chama a Eucaristia de memorial da Paixão do Senhor e que por ela é que somos repletos de todas as graças e bênçãos do céu. (cf. CATECISMO DA IGREJA, 1998, pág. 388) Neste tão grande mistério, a Igreja unida a Cristo, se torna sacerdote e vitima, oferecendo o sacrifício e fazendo de si mesma sacrifício pelo mundo inteiro. E mesmo quando é celebrada pelo sacerdote de maneira privada, é ação de toda Igreja, alcançando graças de salvação pelo mundo inteiro. E é exatamente na missa que podemos ver de fato a presença de Cristo no Santíssimo Sacramento. Segundo Paulo VI, o Sacrifício da Missa e o Sacramento da Eucaristia estão intimamente unidos, “um e o outro, Sacrifício e Sacramento, fazem parte do mesmo Mistério.” (cf. MYSTERIUM FIDEI, disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_03091965_mysterium.html) E continua assim por a Mysterium Fidei:

“O Senhor imola-se de modo incruento no Sacrifício da Missa, que representa o Sacrifício da Cruz e lhe aplica a eficiência salutar, no momento em que, pelas palavras da consagração,  começa a estar presente sacramentalmente presente, como alimento espiritual dos fiéis, sob as espécies do pão e do vinho.” É através da Santa Missa que temos no meio de nós o Santíssimo Sacramento, a presença real de nosso Senhor Jesus Cristo no meio de nós. Não é lembrança, não é símbolo, é real, é uma presença verdadeira, substancial do Senhor. A partir disso, percebemos não só a importância do Santíssimo Sacramento, mas também da Santa Missa, como o momento onde nos tornamos participantes do mistério pascal de Cristo e também onde passamos a ter a presença real de Cristo. Talvez, como diz Paulo VI, algumas pessoas questionariam: “mas Jesus também não se faz presente de outras formas?” Sim. Se pensarmos que o próprio Cristo diz no evangelho de Mateus 18,20, que onde dois ou mais estão presentes, Ele estaria, se pensarmos que através da Sua Palavra, Cristo está a todo tempo a nos falar, se pensarmos que se fizermos algum bem ao menor que seja, como nos diz Mateus 25, 40, estaríamos fazendo o bem a Ele próprio, diríamos que sim, Ele se faz presentes de inúmeras formas e maneiras em nossa vida, manifestando sempre sua presença bondosa e misericordiosa a nós. Porém, Paulo VI fala no parágrafo 38 da Mysterium Fidei, de uma “presença sublime” quando a Igreja celebra o Sacrifício da Missa e administra os sacramentos. E ai, Paulo VI volta a citar São João Crisóstomo:

"Quero acrescentar uma coisa verdadeiramente estupenda, mas não vos espanteis nem vos perturbeis. Que coisa é? A oblação é a mesma, seja quem for o oferente, chame-se ele Pedro ou Paulo; é a mesma que Jesus Cristo confiou aos discípulos e agora realizam os sacerdotes: esta última não é menor que a primeira, porque não são os homens que a tornam santa, mas Aquele que a santificou. Como as palavras pronunciadas por Deus são exatamente as mesmas que agora diz o sacerdote, assim a oblação é também a mesma" (cf. MYSTERIUM FIDEI abud. In. Epist. 2. ad TIm., hom. 2,4; PG 62, 212)

Essa presença real de Cristo se dá, não porque as outras formas não fossem reais, mas porque Cristo está de fato presente, do Cristo completo, de maneira substancial, como nos diz a Mysterium Fidei.  E essa presença real acontece por meio da transubstanciação, que é, a conversão total da substancia do pão e do vinho em Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e dessa forma, deixam de ter sua realidade usual de pão e vinho e passam a ter um sinal sagrado, pois, segundo Paulo VI, contém agora uma nova realidade. Tudo isso é graça de Cristo, como diz o próprio São João Crisóstomo: “Quem faz as coisas oferecidas se tornarem Corpo e Sangue de Cristo não é o homem, é Cristo que foi crucificado por nós. Como representante, pronuncia o sacerdote as palavras rituais; a eficácia e a graça vem de Deus.” (cf. MYSTERIUM FIDEI abud. De prodit. Iudae, homil.1,6; PG 49, 380; cf In Matth., homil. 82,5; PG 58, 744.) Terminando, Paulo VI exorta a toda a Igreja, a vivenciarem o culto Eucaristico, a participarem do Sacrifício da Missa, mas também a adorá-Lo nas capelas e sacrários onde se encontram as espécies Eucarísticas. Cristo, o Emannuel, o Deus conosco, segundo Paulo VI, está a nossa espera, esperando nosso culto.

5- CONCLUSÃO                                                    

Encontramos em muitos lugares na Sagrada Escritura e na Mysterium Fidei, evidências da importância deste Augusto Sacramento, Sacramento esse que nos faz participantes do mistério de Cristo. Mais ainda: que é a própria presença de Cristo no meio de nós através da transubstanciação do pão e do vinho, que é alimento espiritual para os fiéis na Santa Missa e também está nas capelas e sacrários do mundo todo, esperando nossa adoração, para adentrarmos nesse “mysterium” que atualiza o mesmo sacrifício de 2.000 anos de Cristo.  Que através desta profunda reflexão, possamos mergulhar de maneira mais profunda neste sagrado Mistério, deixando que o próprio Cristo nos renove, para que possamos também, transmitir o valor, a importância e a eficácia deste Augusto Mistério a outros para a nossa salvação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AQUINO, Prof. Felipe, “O segredo da Sagrada Eucaristia”, Ed. Cléofas, 2016

 

BIBLIA JERUSALÉM, Ed. Paulus, 1998

 

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Ed. Loyola, 1998

 

COMPÊNDIO DO VATICANO II, Ed. Vozes, 1967

 

ORDINÁRIO DA MISSA, disponível em: http://www.liturgia.pt/ordinario/ordinario.pdf

 

PAULO II, Papa João, Carta Dominicae Cenae, 1980, disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1980/documents/hf_jp-ii_let_19800224_dominicae-cenae.pdf

 

RATZINGER, Joseph, “Introdução ao Espírito da liturgia”, Ed. Loyola, 2015

 

RAZTINGER, Joseph, “Dogma e anúncio”, Ed. Loyola, 2005