ARTIGO
UM CORAÇÃO APAIXONADO JAMAIS DEIXA DE AMAR
19 de agosto de 2026

Neste inicio quero deixar claro, que tudo o que escrevo nesse texto/artigo, não se trata de algum artigo teológico ou ensinamento proposital, embora possa ser aproveitado para essa última finalidade. Mas meu objetivo principal é descrever, nada mais do que pude experimentar nesse tempo e ao mesmo tempo expor aquilo que trago no coração e acredito ser algo que Deus de alguma forma me faz refletir e pensar, todos os dias sem cessar.
Quero começar falando da dinâmica do amor, que como trago no inicio deste texto, faz um coração se tornar enamorado, ardente e porque não, colocado num estado de inquietude. Nada mais que sintomas que transbordam para uma ação, que é justamente amar. E talvez tenha me faltado a ousadia de colocar uma reticência ao final do titulo deste texto, porque amar é uma ação necessária não apenas no estado enamorado, ardente ou inquieto, mas também sobre o vale das sombras, do medo, da angústia (talvez ainda muito mais do que no estágio citado anteriormente, se formos conscientes desse amor).
Mas acredito que para chegarmos a uma compreensão de fato do que acabei de citar, precisamos ir um pouco mais fundo: o que é, de fato, o amor?
Bento XVI, no paragrafo 1 de sua primeira encíclica – Deus caritas est – traz uma das mais belas definições a respeito do amor: ele chama o amor como dom. Mas porque dom? Porque dom nada mais é que algo que recebemos da parte de Deus, porque Ele mesmo é o amor(cf. 1Jo. 4,8) e sendo propriamente o amor, não o pode fazer outra coisa senão cumular-nos desse tão grande amor. E Bento XVI vai ainda mais longe ao dizer que esse dom, o amor, abrange todas as potencialidades do homem e assim alcança o homem na sua totalidade (cf. Deus caritas est, 17). Essa contribuição de Joseph Ratzinger ilumina de maneira muito clara o tema proposto por esse tema, pois é justamente aqui que nasce uma experiência concreta de um coração apaixonado.
Olhar num panorama completo para a minha própria vida sobre a óptica desse amor no qual começamos a meditar mais acima, me faz lembrar de maneira especial de Santo Agostinho, pois tantas vezes deixamos nosso coração ser tomado por uma grande inquietude, mas não a inquietude que citei num outro momento, mas uma que é como a agitação do mar revolto mediante a tormenta da tempestade em que é submetido, balança, sacode com tamanha força, ao fazer-nos perder a direção.
E claro, como não lembrar dos discípulos (Mc. 4, 35ss.), que perderam sua segurança, pois tiraram os olhos e mais que apenas os olhos, mas o coração d’Aquele que é nossa segurança, como disse várias vezes Davi ao salmodiar ao Senhor.
Voltando os olhos para Santo Agostinho (cf. Confissões, 27), quantas vezes eu, foi quem procurou fora o que estava dentro? Quantas foram as vezes que busquei o que no meu interior já se encontrava? E não estou me referindo a minha vida passada, antes da experiência de encontrar o Senhor pela primeira vez, mas me refiro justamente depois de saber quem Ele é, de ouvir a Sua voz irresistível, de ouvir o “vem e segue-me” (cf. Mt. 19, 21) e principalmente de me amar quando eu não tinha nenhum motivo para receber desse amor transformador.
Mas embora essa triste realidade, uma coisa tenho comigo como certa: o amor de Deus é como uma marca indelével, até mesmo parafraseando aquilo que é próprio do sacramento do batismo, me referindo ao que ele causa e não num teor comparativo com o sacramento em si, pois quem experimenta o amor de Deus em algum momento da vida, mesmo que volte a vida velha, mesmo que renuncie ao seu Senhor, carregara consigo uma marca, lá no fundo, que mesmo que fuja, ela estará sempre lá, marcada, estampada aos olhos da nossa alma, mesmocom nossas imperfeições e misérias, estampadas com extrema clareza e com grande força, própria do amor dilacerante de Deus. E quem entende essa realidade com honestidade, sabe que não tem outra coisa a se fazer senão a se entregar a esse amor, o amor com A maiúsculo, o Dom maior, que se doa a nós e apenas nos ama.
E ai não tem jeito: aquinasce um coração apaixonado.
Sempre ouvi dizer que todos nós temos uma identidade própria, assim como nós a temos como documento, de maneira única, uma marca própria, nós em Deus também temos a nossa. E uma coisa que sempre me perguntei, desde quando comecei a caminhar era justamente qual é a minha grande identidade. E talvez eu poderia dizer muitas coisas, referenciando algo que vivi de maneira especial na Renovação Carismática, mas também em toda e qualquer realidade eclesial, em algum movimento ou pastoral, encontro ou retiro, adintra ou adextra da própria Igreja. Mas não.Nada disso é capaz de descrever profundamente algo que eu pudesse dizer que é uma identidade em mim E se tem algo que talvez pode melhor me descrever seja justamente isso: um coração apaixonado! Com toda a força que essa expressão possa trazer, pois um coração apaixonado ele é completamente entregue a seu(ua) amado(a), não pensa nas consequências, mas apenas se entrega. E aqui não se trata tanto de gestos externos ou como traduzi-los de alguma forma material, pois nem sempre se sabe como o fazer. Mas vamos falar mais a fundo disso depois.
Para entender melhor a realidade de um coração apaixonado, voltemos a Deuscaritasest, onde no parágrafo 17 vemos Bento XVI sinalizar esse amor como “dom recebido e doado”, sendo necessário beber incessantemente da sua fonte originária que é o próprio Jesus.
Um coração apaixonado não hesita em beber incessantemente desse amor, até mesmosem perceber que o faz, não porque seja uma ação involuntária(até porque se for involuntário, não há de fato um desejo de ter um coração apaixonado), mas sim porque está tão enamorado, que não pensa em outra coisa senão beber deste amor. Mas aqui tem algo que precisa chamar nossa atenção: esse amor não é apenas recebido. Ele precisa ser também doado. Na mesma proporção, na mesma medida, dar-se em amor. E aqui está o grande termômetro para sabermos se de fato temos um coração apaixonado.
Saindo um pouco da minha própria vida e minha experiência pessoal, mediante aos grandes e tantos desafios do nosso tempo, existe algo que me chama atenção, que é simples e desastroso: o medo da decisão. E quando falo decisão, não falo das grandes coisas, mas do ato concreto, do passo a mais que precisamos dar em direção aalgo ou alguém. Ainda mais quando falamos a respeito de Deus, sua onisciência que vai além do nosso entendimento e dos nossos medos de perder de vista nossos próprios sonhos, esse medo da decisão arranca a oportunidade de viver o sobrenatural com todas as suas surpresas, e claro, a felicidade de quem vive plenamente a vontade de Deus.
Quando falei sobre ocoraçãoapaixonado ser a minha grande identidade, eu faloa respeito de algo intimo, interior, que eu queria que as pessoas pudessem enxergar, mas sóeu e o Senhor conseguimos ver , sentir ou medir. Mas desde o dia que Seu Amor adentrou minha alma, como “um fogo devorador” (cf. Jr. 20, 9), incontrolável e que não me deixava mais ser quem eu era. E antes que eu soubesse quem era Bento XVI, que houvesse uma tal de carta encíclica que dizia que esse amor recebido também precisava ser doado,algo em mim desejava ardentemente esse caminho de mão dupla: estar aos pés do Senhor apenas para ser amado, mas também ir de encontro aos irmãos anunciar que o amor que eu tanto procurei, nas coisas e nas pessoas, eu encontrei numa fonte inesgotável, a única capaz de saciar por inteiro, diferente dos poços vazios e sem água (cf. Jr. 2, 13) a qual eu era submetido por minha própria concepção. E os desdobramentos desse entendimento foram muitos: uma vida transformada, uma família alcançada, uma entrega de vida para a Igreja na RCC há 16 anos(e contando), uma família constituída e firmada diante de um novo povo, uma nova paróquia, uma nova diocese, num novo tempo.
Quando tive o primeiro contato com os documentos do Concilio Vaticano II, a primeira expressão que saltou aos meus olhos foi a de “Cristo Luz dos povos”, que é justamente o significado de LumemGentium, um dos documentos mais famosos do concilio. E ele me chamou atenção porque como diz João, Deus é luz e nEle não há trevas (cf. 1Jo. 1,5) e essa luz me alcançou dissipando as trevas da minha vida, eu sempre acrediteicom todas as minhas forças que preciso fazer de alguma forma essa luz chegar também a todos os povos. Não porque eu tivesse algo a oferecer ou porque Deus viu alguma beleza em mim para o fazer, mas única e exclusivamente porque aqueles que na treva estão, precisam tanto quanto eu serem alcançados por essa luz. E se minha vida terrena se findasse hoje, me faltaria palavras de gratidão ao Senhor por tudo oque Ele fez e me permitiu ver de alguma forma nesse tempo de entrega.
E aqui saindo umpouco do campo intimista, da minha experiência pessoal e permanecendo ainda com os olhos no último Concílio, quero fazer menção e memória a Apostolicamactuositatem, para entender(e eu também melhor entender) que essa necessidade da transmissão dessa luz – ou desse amor, como falamos acima – é de todos nós. E o decreto começa falando de vocação (vocare = chamado de Deus) do leigo ao apostolado (cf. A.A, 2).
Emoutro tempo tínhamos de certa forma uma “clericalização” do apostolado, crendo que esse encargo ficava por conta dos ministros ordenados ou da vocação religiosa. Mas creio que isso mudou um pouco de figura.Acredito que até conseguimos sair um pouco dessa óptica, mas paramos na idéia que essa vocação é de apenas alguns, que carregam um grande dom, um grande chamado, como poderia citar alguns nomes que arrastam multidões, sejam por pregações, músicas e afins. E com isso acabamos nos tornando um “apostolado de encontro”, que se reúne algum momento e logo volta pra casa, para suas obrigações particulares (não que elas não sejam apostolado, muito pelo contrário. Mas falo disso daqui um instante).
Após essa contextualização, voltaremos ao “vocare”, expressão usada no decreto acima citado, pois ele referência isso como missão da Igreja em primeiro lugar (cf. A. A. , 2) e é a própria Igreja que nos faz participantes dessa missão. Ou melhor, dessa vocação, pois é Deus, através da Igreja, que está a nos chamar, a um “dever luminoso de colaborar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e acolhida por todos os homens em toda a parte”. (cf. A. A. 2).Mas se é missão da Igreja, chamado de Deus para cada um de nós a esse dever, é preciso haver aquilo que falei antes:decisão. E a pergunta que me faço hoje é: qual tem sido minha decisão? Até porque não decidir, também é decisão.
Retornando a imagem do coração apaixonado, quem ama verdadeiramente, sempre há de se incomodar com algo que possa fazer pelo seu amado, em ver seu amado bem, feliz. Ou se incomodará pela não iniciativa que poderia contribuir para isto. É assim na vida dos cônjuges (ou deveria ser), dos namorados, dos amigos (falando aqui do amor eros). E tenho comigo que mediante o amor ágape, esse é o mesmo sentimento de Deus para conosco. E esse deveria ser o mesmo sentimento a arder em nós, se tivermos de fato um coração apaixonado.
E aquiquero abrir meu coração: eis aqui meu grande drama, o Sentire cum Ecclesia, que consome de desejo de amar o Amado e os seus amados. Mais uma vez, não porque eu ache que eu seja algo ou alguém, mais por pura misericórdia dAquele que me chamou. Mas eu não consigo fingir que não sinto nada, que não há dentro de mim uma urgência gritante em encontra-Lo, em ama-Lo, em estar com Ele. Mas não apenas isso, sabendo eu que Ele é o Tudo que precisamos e procuramos, leva-Lo aonde o Senhor me enviar, da forma que Ele quiser.Muita coisa mudoudesde o meu primeiro encontro, meu apostolado hoje passa muito pela minha vocação familiar, de maneira especial na realidade da Laurinha, mas que também é uma grande forma de fazer o mesmo: encontrar esse Deus que ama e cuida e ser transmissor desse amor. Mesmo nos dias difíceis, mesmo nos dias onde eu não tenho nada a oferecer senão minhas lágrimas, meu cansaço, minhas dores. Mas o apostolado que passa pelo meu laicato também faz parte desse chamado divino. E embora eu não exerça mais da mesma forma, com a mesma disponibilidade, a urgência interior nunca se alterou, nunca cedeu e muito menos se apagou. Talvez você lendo isso não consiga perceber de maneira palpável e por isso lá em cima falei que muitas vezes não conseguimos materializar isso. Ou talvez nem precisemos, pois a própria Igreja em seu magistério já o fez, como exemplifiquei acima.
São exatamente 01:22 da manhã e mediante a tudo isso que venho refletindo e descreviacima, uma coisa salta aos meus olhos: o que falta para que os corações apaixonados tomem a decisão de amar? Mais manchetes ruins? Noticias desoladoras de longe ou de perto? Deus, que já age através da Igreja, dos sacramentos e de Sua Palavra, se personificar em nossa frente? Esse questionamento eu faço a mim mesmo, é claro. Quanto me faltou a minha decisão pelo Reino?Quantas e quantas foram as vezes que as minhas desculpas falaram mais alto que o Teu chamado, Senhor? Quantas vezes posterguei viver um “Novo cenáculo”, para viver meus caprichos?
Deus me livre querer ser pregador, coordenador, ministro ou qualquer encargo que traga apenas um status visto por todos e não me faça um “instrumento da paz” nas mãos do Senhor. Deus me(nos) livre da tentação de sermos vistos pela beleza dos nossos dons e carismas. Mas que Ele me ajude a usá-los a serviços de tantos irmãos e irmãs, que necessitam desse Deus amor que carregamos em nossocoração apaixonado.
Quero terminar essa reflexão fazendo memória a São José Escrivá e Santa Elena Guerra.
São José Escrivá, em uma de suas homilias pronunciadas em 8 de outubro de 1967 em Navarra (cf. Amar a Igreja, pag. 89) relembra a nós o contrário que ouvimos por ai: o mundo não é mau. Ele é bom! Bom porque foi criado por Deus e viu que era bom (cf. Gen. 1, 7ss.). Mas fomos nós, criaturas que esquecemos que fomos feitos filhos em Cristo, que o estragamos com nossos pecados e nossas infidelidades. Aqui me chama muita atenção: pecado e infidelidade colocada lado a lado. As vezes não precisa ser propriamente um ser repleto de pecados, mas basta apenas deixar de lado a fidelidade, que tem o mesmo radical que origina justamente a fé (fides).
E Santa Elena Guerra, acreditava que carregava consigo uma “centelha” (cf. Escritos de fogo) do amor de Deus, pelo Espirito Santo que em ti agia. E que ela precisava espalhar essa centelha e assim deu inicio aos “cenáculos”, diversos grupos que se espalharam por Lucca e toda a Itália, chegando até próximo a nós, na Argentina, para rezarem a novena ao Santo Espirito que ela deu o nome de “Novo Cenáculo.”
E talvez você esteja se perguntando qual a ligação das duas citações desses dois santos que fiz acima né? É simples! Se esse mundo feito por Deus, está sendo dilacerado por nossos pecados e nossas infidelidades, é essa centelha que arde em nós, fazendo-nos ter um coração apaixonado, que é capaz de reacender a chama do amor no mundo tão dilacerado pelo mau. Mas se não compartilharmos dessa centelha interior e muito menos ela alimentar, nada vai restar em nós do que apenas brasas antigas, que nada servem senão sujar nosso coração.
E termino trazendo um trecho da mesma homilia de São José Maria Escrivá: “Deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-nos todos os dias: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar [permita-me acrescentar: no movimento, pastoral, comunidade, congregação religiosa, seminário, na missão, na catequese, no ministério da Eucaristia, na formação...],e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a sabe-lo: escondido nas situações mais comuns, há algo de santo, de divino, que vos cabe a cada um de vós descobrir.”
(cf. Amar a Igreja, pág. 89)
De seu irmão em Cristo,
Wesley Abreu
