ARTIGO

VOCAÇÃO LAICAL: A OFERTA DE VIDA QUE PRECISA REFLETIR A OFERTA DE VIDA DE CRISTO

“A quem enviarei?”. Então responde: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6,8)

Tradicionalmente no mês de agosto, toda a Igreja é chamada a rezar pelas vocações. Vocações estas que, cada uma com sua particularidade, essência, modo e ação, ajudam a “missão salvífica da Igreja” (cf. Christifidelis Laici, 23). Porém essa missão não existiria, se então Cristo não se entregasse por amor a Igreja (cf. Ef. 5, 25). Mas ao que constitui essa entrega? Eu gosto de pensar na entrega de Cristo a partir de três pontos importantíssimos: Aceitar o designo de Deus, abraçar o designo de Deus e se doar inteiramente pelo designo de Deus.
Com certeza para todos nós é claro que a missão de Cristo era, se tornando o Cordeiro de Deus, nos remir dos nossos pecados e devolver a nós aquela vida que havíamos perdido. Mas antes de ir direto ao ponto, era preciso compreender qual a missão que o Pai o havia designado. E é justamente por isso que o próprio Jesus quem diz: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo. 6, 38). E isso se acentua de maneira muito profunda quando pelo Catecismo da Igreja compreendemos que Cristo possui duas vontades, que são cooperantes e mesmo sendo o Verbo , humanamente assume a obediência ao Pai em tudo quanto decidiu divinamente para nossa salvação. (cf. CIC 475). Mas não basta aceitar aquilo que o Pai o havia designado: é preciso abraçar verdadeiramente esse projeto de salvação. E diante disso o Evangelho de João continua a nos iluminar, quando Cristo diz: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (Jo. 4, 34). Mais do que apenas compreender e aceitar a obra salvífica, Ele faz dela aquilo que sacia sua alma, sabendo que na verdade essa saciedade era que toda a humanidade precisava e não havia de conseguir de outra forma. E então Jesus substitui o Servo Sofredor (Is. 53) abraçando o plano salvífico do Pai (cf. CIC 615).
Pensar numa aceitação profunda do que Deus Pai havia projetado para a humanidade e perceber que Jesus havia abraçado esse projeto, pode nos fazer pensar que isso bastasse. Não que isso não poderia ser suficiente, pois Deus é onipotente e tem o poder de fazer tudo, com apenas um Fiat. Mas para que se concretizasse a obra de redenção perfeita, se na antiguidade o primeiro homem havia se entregado, não para Deus mas para o pecado, agora é preciso que o “novo Homem” se entregue completamente nas mãos do Senhor, agora não para afastar o homem da presença de Deus como foi a consequência da primeira ação, mas para trazer de volta a comunhão com o Seu Senhor. E é justamente por isso que “Ele deu a sua vida por nós” (cf. 1Jo. 3, 16).
A entrega de Cristo, por amor, passando por esses três pontos refletidos acima, trazem a nós a profundidade de sua oferta. Uma oferta que não pensou em Si mesmo, mas que sabendo que Ele , mesmo sendo filho de Deus, precisava se ofertar em favor de cada um de nós. E é exatamente aqui que precisamos começar a pensar a respeito da nossa vocação.

Falar de vocação, antes de entrar nas vocações propriamente ditas, nos faz necessário ter um olhar eclesiológico, pois se Cristo amou a Igreja e se entregou, se ofertou por ela, como lemos no trecho de Efésios citado acima, de alguma forma a Igreja tem parte nessa oferta. E pensar nisso nos leva justamente numa das grandes características da Igreja: ela é missionária por essência. E aqui quero lembrar de um dos grandes teólogos do século XX: “A Igreja é missionária por natureza, porque ela própria é, na história, o sacramento da missão de Cristo e do Espirito.” (Yves Congar, A Igreja de São Pedro a João XXIII, 1967). Não basta ela relembrar Cristo, mas ela precisa ser sinal visível e por isso que Yves usa a expressão “sacramento”. Joseph Ratzinger diz que é exatamente ai que está a sua “mais profunda identidade” (cf. Dogma e Anúncio, 2007). Ou seja, como fez ecoar o Concilio Vaticano II: natura sua missionaria est (cf. Ad Gentes, 2).

Entendendo então que ofertar-se em missão é uma identidade da Igreja, temos aqui um ponto que muda tudo quando pensamos em vocação, seja ela qual for. E com certa tristeza vejo a vocação sendo refletida apenas numa perspectiva antropológica, como se ela fosse constituída apenas de uma resposta pessoal, que por si só agrega valor naquilo que faz. Claro que digo de uma maneira indireta. Creio que ninguém pensa dessa forma diretamente. Mas um sim a uma vocação pela sua beleza, pela sua grandeza, pela sua recompensa, pela sua visibilidade ou apenas pelo seu próprio sonho, nada mais é que pensar em si mesmo. E se esse “si mesmo” não for algo que te leve a olhar para Cristo, o que era pra ser uma vocação santa, passa a ser nada mais que um grande bezerro de ouro (cf. Ex. 32) , feito para aparentar o Senhor, mas sem nada d’Ele verdadeiramente.

Então para melhor compreensão da vocação em seu sentido real, precisamos entender que se trata de um chamado sim, mas que vem de Alguém que chama, que bate a porta, esperando que abramos para que Ele entre. Essa percepção muda tudo, pois não é apenas o ato de chamar ou de ser chamado, mas sim quem nos chama, quem nos convoca. E quem nos chama, entregou a vida, ofertou sua vida por nós, para que alcançássemos uma vida nova. Mas não apenas isso: tendo a graça de ouvir a Sua voz que chama, que convoca, que nos leva a experimentar o novo, faz-nos olhar para os demais irmãos e perceber que eles também precisam alcançar essa graça.
Faço memória do nosso saudoso Papa Francisco, quando escrever que cada um dos batizados, independente daquilo que tem como função ou do que conhece em matéria de fé, precisa ser alguém ativo de evangelização (cf. Evangelli Gaudium, 120). E diante disso eu faço uma constatação muito interessante: a vocação laical é aquela que abre o horizonte, fazendo Cristo e Sua Palavra alcançarem os quatro cantos do mundo, não porque trazem consigo um grau superior de importância, mas porque os leigos estão em todas as partes do mundo. Desde as famílias, que vivendo santamente, se tornam um grande testemunho, mesmo quando não falam absolutamente nada. Os profissionais, que com caridade e misericórdia executam suas funções e trabalhos, mostram a face do Cristo amoroso, na simplicidade do dia a dia. Mas quero de maneira especial me debruçar sobre aqueles leigos que se sentem chamados a alguma pastoral ou movimento, dedicando sua vida a alguma atividade eclesial, que abrange desde o ensino da fé(catequese), o pastoreio de determinados grupos (pastoral da família, pastoral da juventude e etc...), a transmissão da caridade de modo social (vicentinos, pastoral da sobriedade e etc..) e também aqueles que cuidam de transmitir um cuidado espiritual (apostolado da oração, RCC e etc...).
Sinto que em nossos dias, mediante a quantidade de compromissos, a força de nossos esforços, encontramos servos cansados, abatidos e até mesmo alguns pensando em abandonar seu posto em troca da quietude. Porém se trata de uma falsa quietude, que pode ser mascarada pela ausência de tantos compromissos já normais em nossas vidas, mas que se transformam num vazio interior, que ecoa de maneira estrondosa, em silêncio, dentro do nosso coração.
Mas o objetivo central desse texto é chamar a atenção de cada um daqueles que se enquadram como parte desse conjunto laical que faz parte do todo do Povo de Deus.
Precisamos voltar a nos recordar da oferta de Cristo, para entender que a nossa entrega é continuidade dessa entrega salvífica de Cristo por nós. Ou seja, um grande testemunho, que é o grande meio pelo qual a Boa Nova há de ser proclamada (cf. Evangelii Nutiandi, 21). Mas o que testemunhar? Voltemos naqueles três pontos que chamei a atenção na oferta de vida de Cristo: primeiramente aceitar o designo de Deus. Mas qual é o designo de Deus? O que Deus quer de mim? Antes de me chamar a um movimento x ou pastoral y, o que Deus quer de mim naquele lugar? Se não entendermos isso em primeiro lugar, não saberemos o que abraçar e muito menos como se doar.
Ao entender o designo, o chamado, a missão que Cristo nos pede de maneira especifica, agora é hora de abraçar esse designo, segundo ponto que trouxe lá em cima, para que ele saia do campo da ideia e se torne uma verdade em nosso coração. Deus não quer apenas, mas agora sabendo do Seu querer, me leva a querer também, com todas as minhas forças.
E então, tendo compreendido qual o designo de Deus pra mim e através de mim, tendo o abraçado verdadeiramente, agora é hora de se doar, se ofertar por amor ao Amor e aos amados d’Ele. Creio que então nessa óptica o chamado de cada um passa a ter algo diferente, não trazido por nós, mas incrementado por Ele. “Os leigos devem cooperar na obra de evangelização da Igreja; como testemunhas e, ao mesmo tempo, como instrumentos vivos, participam da sua missão salvífica” (Ad Gentes, 41).

Quero finalizar essa reflexão fazendo memória ao santo de Assis, para deixar um grande grito de Deus a nós leigos, numa sociedade tão fria, abatida e secularizada: “Vai e reconstrói a minha Igreja.”


De seu irmão e amigo,
Wesley Abreu
24 de agosto – Memória de São Bartolomeu